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Enquanto a indústria automotiva enfrenta queda nas vendas, consumidores esperam até quatro meses para receber o carro. O que explica essa contradição?
A indústria automobilística brasileira vive um momento curioso. Segundo dados divulgados na semana passada, nos quatro primeiros meses do ano as vendas de carros caíram 3,4% em relação ao mesmo período de 2011, enquanto a produção encolheu 10,1%.
Graças a essa desaceleração, o Brasil perdeu para a Índia o posto de quarto maior mercado do planeta e, em algumas plantas industriais, o estoque elevado já causa preocupação. Diante desse cenário, é de se imaginar que a palavra crise, distante do universo das montadoras nos últimos cinco anos, voltou agora com força.
Não é bem assim. Para um grupo de fabricantes, o setor nunca esteve tão pujante e, por mais estranho que possa parecer, há modelos que são entregues ao consumidor depois de longa espera. Em certos casos, ela pode chegar a meses.
O administrador de empresas Eduardo Dias, morador do Rio de Janeiro, deu um sinal de R$ 2 mil e está há 65 dias no aguardo de um Nissan Versa modelo SL. “Vou esperar 90 dias, mas, se demorar 91, não sei se tolero”, diz.
A japonesa Nissan lançou o sedã Versa no fim do ano passado, mas subestimou o potencial de vendas do veículo. Resultado: para receber o carro, alguns compradores esperam até quatro meses. A angústia se tornou hit em páginas do Facebook, que trazem reclamações compartilhadas por inúmeros compradores.
Embora tenham fechado negócio no início do ano, muitos deles continuam na fila. A Nissan diz que não pode aumentar a quantidade de unidades importadas, porque boa parte da produção é absorvida pelos mercados mexicano e americano (onde o Versa está no topo dos mais vendidos de seu segmento).
A exemplo do Nissan Versa, o Fiat 500 também é fabricado no México e a montadora italiana enfrenta a mesma dificuldade para colocar seus carros no Brasil. Vigente desde março, o novo acordo entre Brasil e México isenta do imposto de importação os automóveis oriundos daquele país, mas estabeleceu cotas que limitam o comércio bilateral pelos próximos três anos. Até 18 de março de 2013, só está permitida a importação de US$ 1,45 bilhão. O resultado? Filas enormes e consumidores ansiosos.
Entre os motoristas com maior poder aquisitivo, a moda do automóvel esportivo na cor branca é o que faz alguns esperarem mais de 100 dias para dirigir seu carro novo. “Esses clientes simplesmente não aceitam o produto que é empurrado para eles e se permitem esperar pelo que desejam”, afirma Ary Jorge Ribeiro, diretor de vendas da sul-coreana Kia. O prazo de entrega de alguns modelos Sportage é de 30 dias, mas o tempo que a montadora leva para importá-lo vai de três a quatro meses, o que pode provocar mais filas, se a procura crescer. “É evidente que não queremos isso”, diz Ribeiro. Até o segmento de luxo testa a paciência do consumidor.
O Evoque, da Land Rover, tem fila de compradores de até três meses, divididos pelas possibilidades de cores e acabamentos. As filas são indicadores de que não existe crise no horizonte. Segundo especialistas, a queda nas vendas é reflexo principalmente das restrições ao crédito impostas pelo governo no ano passado.
“Em termos macroeconômicos, é muito saudável a situação brasileira, com baixo desemprego e aumento da renda”, diz Guido Vildozo, analista da IHS. “Mas o sistema bancário tem sido muito rígido com as aprovações das linhas de financiamento.” O cenário vai melhorar? Tudo indica que sim. Na quinta-feira 10, a Caixa Econômica reduziu os juros destinados à aquisição de carros novos. É questão de tempo para os bancos privados trilharem o mesmo caminho e reanimarem o setor.
Mariana Queiroz Barboza | Isto é


