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A desindustrialização é um fato. Os números mostram persistente encolhimento da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) — em 2011, a participação minguou para 14,6%, a menor desde 1956.
Os manufaturados nacionais perdem terreno para os importados, com previsão de deficit comercial de US$ 94 bilhões este ano. O desafio é o que fazer para superar o cenário adverso, que destrói empregos e dificulta a expansão da economia num ritmo robusto. Juntos, governo e empresários devem agir para obter uma plena reindustrialização do país. A hora é agora.
A indústria brasileira tem desafios do século 21, mas ainda está presa a problemas dos séculos 19 e 20. A produtividade das empresas e a competitividade dos produtos são minadas diariamente por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. A lista é ampla: câmbio supervalorizado, infraestrutura deficiente, sistema tributário obsoleto, excesso de encargos trabalhistas, taxação de investimentos e exportações, burocracia e juros altos.
Nas últimas décadas, o dinamismo global não está mais no Atlântico Norte. Mudou-se dos Estados Unidos e da Europa em direção à Ásia. Apoiado em fortes incentivos oficiais, como moedas artificialmente desvalorizadas e baixos custos de produção, o sistema asiático concorre com a nossa indústria em todos os mercados relevantes — inclusive no nosso. A competição é feroz e, muitas vezes, maculada por práticas desleais de comércio.
Para se contrapor a essa onda, o país deve olhar para frente e agir de forma estratégica numa dupla linha de combate. No plano institucional, o governo tem que remover o entulho que dificulta os negócios. O ambiente macroeconômico precisa ser propício ao aumento da produtividade e da competitividade. A desoneração de investimentos e exportações dinamizaria os negócios, assim como a redução dos custos de produção.
A elevação dos investimentos públicos em infraestrutura é uma precondição para o aperfeiçoamento da logística de transportes, cujos defeitos encarecem nossos produtos. Portos e aeroportos precisam ser modernizados, pois as estruturas atuais estão à beira do colapso. Um sistema ferroviário deve ser erguido, com uma malha espalhada em todo o país.
No Brasil, a agenda de reformas é sempre adiada. Os avanços são pontuais e demoram muito a sair do papel. A direção costuma ser a certa, mas o ritmo é penoso. Agora mesmo, o governo discute a adoção de novas medidas para estimular a competitividade. Neste momento, é preciso ser ousado. Formas de tornar o câmbio favorável à produção local devem ser imaginadas, como a adoção de um controle rígido de entrada de capital de curto prazo no país.
A desoneração da folha de pagamentos não pode ter como contrapartida o aumento de outros tributos, com a carga tributária se mantendo no mesmo tamanho e complexidade. Já passou da hora de nos dedicarmos a uma reformulação geral do sistema de cobrança de impostos, um monstro de mil cabeças a atormentar o empresário brasileiro. Da mesma forma, se não aniquilarmos a burocracia, ela vai acabar conosco.
As decisões devem ser orientadas a incentivar investimentos, principalmente em atividades sensíveis. Nesse capítulo, é impossível escapar da discussão setorial. A área de energia e combustíveis é de segurança nacional. Não pode ser negligenciada, sob pena de prejuízos a toda a economia. Bens de capitais, bens duráveis e insumos básicos, como metalurgia, siderurgia e química, são essenciais, pois afetam longas cadeias produtivas.
Pela própria característica de seus empreendimentos, segmentos de ponta, como biotecnologia, nanotecnologia e farmacêutica, necessitam de estímulos. A indústria do século 21 será cada vez mais baseada no conhecimento. Sem incentivo à pesquisa, não sairemos do lugar. Justamente aí entra a segunda linha de ação para a plena reindustrialização do país. Essa frente será combatida dentro das fábricas, por empresários e trabalhadores, com modernização de produtos e processos.
As indústrias terão melhor desempenho se montarem estratégias de competição baseadas em inovação, qualidade e diferenciação de produtos para atuar tanto no mercado interno como no externo. Para isso, entretanto, precisam contar com ambiente favorável. O empresário brasileiro é um dos mais empreendedores e criativos do mundo. Trabalha com afinco e já superou diversos momentos de caos econômico. Se puder competir em igualdade de condições, não haverá quem o segure.
Robson Braga Andrade | Empresário e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) |Correio Braziliense


