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Em reação ao protecionismo comercial de Cristina Kirchner, o governo brasileiro burocratiza as importações da Argentina.

Uma luz vermelha acendeu, no começo de abril, na filial brasileira da fabricante de máquinas agrícolas AGCO. O setor como um todo havia registrado queda de 70% nas exportações de tratores para a Argentina no primeiro trimestre – foram cerca de 450 unidades, ante uma média trimestral de 1,5 mil unidades em 2011.

Para complicar, a AGCO, em particular, perdeu terreno para seus concorrentes no país vizinho, com queda de participação de 45% para 26%. O estrago nas planilhas financeiras da AGCO decorre da política protecionista do governo Cristina Kirchner, que tem dificultado o acesso de produtos importados como forma de melhorar a balança comercial.

“Como os nossos concorrentes possuem produção na Argentina, eles conseguem mais licenças para importar produtos do Brasil”, diz André Carioba, vice-presidente da AGCO.

Para reconquistar espaço no segundo maior mercado agrícola da região, a companhia resolveu construir uma fábrica perto de Buenos Aires, com previsão de inauguração no ano que vem. “Pode ser que algum modelo de trator deixe de ser feito no Brasil e passe a ser produzido lá”, diz Carioba.

“E a produção voltará ao mercado brasileiro via importação.” Por causa das barreiras, as compras de produtos brasileiros pelos argentinos acumulam queda de 11,7% no primeiro quadrimestre – somente em abril, a redução foi de 27,1% (veja tabela). O cenário piorou quando o governo peronista passou a exigir do importador um documento comprovando a exportação de produtos no mesmo valor, a chamada política “uno por uno”.

“Vivemos o pior dos mundos, pois o governo não toma medidas severas contra esse protecionismo e o Brasil perde produção”, afirma Humberto Barbato, presidente da Associação da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

Barbato tem razões de sobra para reclamar da atual situação: as exportações de utilidades domésticas e equipamentos de telecomunicações tiveram queda de 75% de janeiro até abril. Outros setores também estão sendo prejudicados.

A indústria calçadista calcula que 2,2 milhões de pares de sapatos aguardam liberação das licenças para embarque – há remessas paradas que vão fazer aniversário de um ano, no mês que vem. Nem mesmo grandes empresas estão sendo poupadas. Na semana passada, a Natura anunciou que 60% de suas exportações de cosméticos para o mercado argentino estão sendo barradas.

Após várias declarações públicas de apoio ao governo de Cristina Kirchner, a paciência do Palácio do Planalto já começa a dar sinais de esgotamento. Desde a quinta-feira 10, o Brasil passou a restringir a entrada de diversos itens, como vinho, uva-passa, batata, azeitona, chocolate e maçã.

Foram escolhidos produtos perecíveis, com peso nas exportações argentinas, justamente para demonstrar sua insatisfação. Com o licenciamento não automático, o governo brasileiro tem até 60 dias para autorizar as exportações – o que sempre acontece –, mas a demora causa prejuízos ao exportador de perecíveis. Do lado argentino, a licença não automática atinge cerca de 600 produtos.

O governo brasileiro aceita o mecanismo, mas reclama que muitas guias demoram mais de dois meses – o prazo máximo aceito pela Organização Mundial do Comércio – para serem processadas.

Na semana passada, os ministros do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e da Agricultura, Mendes Ribeiro, receberam, em Brasília, o chanceler Héctor Timerman e o polêmico secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, famoso por sua truculência – ele faz questão de exibir uma pistola durante reuniões com empresários.

A única decisão do encontro foi a retomada das reuniões de monitoramento, paralisadas há dois meses. De prático mesmo, nada. O Brasil reivindica a liberação das exportações de carne suína e a Argentina pede a abertura do mercado de fármacos, cítricos, uva-passa, lagosta e camarão. A solução desse imbróglio torna-se urgente para os dois países, uma vez que as exportações argentinas para o Brasil também sofrem os efeitos colaterais do protecionismo, com queda de 7,3% no ano. O cenário tende a piorar e o resultado final será uma derrota para os dois lados.

Luís Artur Nogueira |  Isto é Dinheiro | Colaboraram: Denize Bacoccina e Diego Costa

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