Selo de IPI nos vinhos: um retrocesso no comércio exterior

SeloIPIFiscalVinhos

Por Carlos Araújo @comexblog

Nas duas últimas décadas o comércio exterior brasileiro avançou na velocidade da luz.  Mesmo com todas as dificuldades encontradas no Brasil antes da privatização e com altos preços dos equipamentos, sistemas gerenciais foram implantados (Siscomex), a segurança da informação se tornou uma realidade com a certificação digital, e o ambiente da web tornou-se algo tão comum nas operações das empresas que é impossível de acreditar que um dia tudo isso foi feito no papel.

Mas mesmo com todas estas vantagens adquiridas ao logo dos últimos anos, faltava alguma coisa, não para ajudar, mas para retroceder e ficar pior.  Estamos falando da obrigatoriedade da selagem dos vinhos importados (e nacionais) a partir de julho de 2011.

A Receita Federal do Brasil divulgou recentemente, através da Instrução Normativa 1.026/2010, de que os vinhos importados, e também os nacionais, a exemplo das bebidas destiladas como uísques, cachaças, vodcas, licores e outras, também terão a obrigatoriedade de ter o selo de controle do IPI.

Para o Governo esta medida visa atacar (e diminuir) o comércio ilegal, e isso terá reflexo no aumento da arrecadação (ahh, sim, está claro o motivo).  Mas como isto funciona e por qual motivo é ruim? Vamos explicar, já que serão afetados importadores, fabricantes, restaurantes, atacadistas e revendas varejistas até julho do próximo ano.

Para se importar bebidas no Brasil, é preciso percorrer um caminho árduo, equivalente a um calvário.  Empresas sem expertise não conseguem nacionalizar seus produtos por conta do excesso de zelo e burocracia da legislação brasileira.

Quando uma carga deste tipo chega no Brasil, é preciso que o Ministério da Agricultura faça a coleta de 01 litro de cada tipo/lote de bebidas e mande para um laboratório credenciado para serem feitas as diversas análises que a lei obrigad.  Até aí nenhuma crítica ao processo, já que a necessidade legal foi criada para proteger nossa saúde.  O problema é que nem sempre este processo é rápido e o custo é repassado ao preço final do produto

Para que o fiscal realize a coleta, é necessário que a mercadoria seja retirada por completo do contêiner (a famigerada desova da mercadoria) e isto custa muito caro dependendo do terminal e do local na qual o produto esteja armazenado.  Desconheço uma autoridade agropecuária que autorize a coleta das amostras sem que carga esteja por completo desovada.

Depois do produto ser analisado pelo laboratório e aprovado segundo o padrão de qualidade proposto na legislação vigente, é efetuado o deferimento da licença de importação e o próximo passo é o despacho aduaneiro. Por experiência própria, já se passaram 15 dias (no mínimo) entre a chegada e o início do despacho aduaneiro.  A próxima etapa é passar pelo crivo da Receita Federal.

Sei que alguns podem dizer que o Ministério da Agricultura aceita um termo de fiel depositário, em que o importador assume a responsabilidade pela qualidade do produto e não se poderá vender o produto antes do laudo final do laboratório.  Porém, o processo operacional de desunitização da carga do contêiner é obrigatório e o seu custo associado é por conta de quem está importando.

Este tipo de obrigatoriedade é necessário para qualquer tipo de bebidas.  Mas algumas, necessitam ainda mais.

Quando a importação é de bebidas destiladas (as chamadas ‘bebidas quentes’), há a também a necessidade do selo de controle de IPI.  Para cumprir esta exigência, o importador deve comprar o selo de controle, de acordo com o tipo de produto, feito em papel moeda, e então colar, um a um, em cada garrafa importada. Mas antes de comprar o selo, ele precisa ter um cadastro de registro especial na Receita Federal, e que leva de 60 a 120 dias para ficar pronto.  Se você vai importar bebidas destiladas, e agora vinhos, prepare-se para ter tal autorização.

Depois de comprar os selos, pega-se uma autorização especial com o fiscal aduaneiro responsável pelo processo, para abrir as caixas e afixar em cada garrafa o selo de controle.  Isto é um serviço manual, feito com muitas pessoas, e que paga-se caro pelo serviço.   E o detalhe:  nenhuma importadora é autorizada a afixar o selo de controle no seu próprio armazém.  Todas são obrigadas a usar o recinto alfandegado antes do desembraço aduaneiro, pagando o preço pelo serviço estipulado pela operadora do armazém, sem concorrência e sem negociação.

Depois de selado, a fiscalização aduaneira retorna ao recinto e confere se todas as garrafas foram seladas e só então a mercadoria é nacionalizada.  Até isto acontecer,  a armazenagem continua sendo cobrada, em um percentual sobre o valor da carga por período de 10 ou 15 dias.  Todo este ciclo operacional  leva quase 30 dias.  E o importador tem de contar com no mínimo um mês para ter o seu produto pronto para venda. Em qual país no mundo há algo parecido? Você ainda acredita que isto não será repassado ao preço final?

Fica latente que na falta da capacidade de fiscalização pelas autoridades aduaneiras, é mais fácil criar uma burocracia e imputá-la ao importador.  E agora o vinho nacional e importado passará por esta situação operacional.

E o Sr. Secretário da Receita Federal informou que a medida não resultará na carga tributária, já que o selo do IPI é abatido no IPI.  Desculpe-me, mas a autoridades aduaneiras estão equivocadas.  O IPI de bebidas no Brasil é cobrado por garrafa no momento em que é registrado a DI.  E o selo do IPI é COMPRADO. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Além de todas as implicações que o importador e produtor nacional de vinhos passará, uma coisa chamou a atenção: a selagem foi pedida por produtores nacionais através da câmara setorial do vinho do Ministério da Agricultura. No passado a própria Receita Federal havia refutado a idéia de exigir selos nas garrafas para comprovar o pagamento do IPI.  Agora, esta mudança tem o consentimento de alguns setores da economia nacional. Triste dizer, mas esta nova medida é um enorme  retrocesso na confusa e burocrática administração aduaneira do Brasil.

Ah! Já estava esquecendo:  os vinhos importados para o natal de 2010 já terão de chegar nas prateleiras selados.



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Sobre o autor

Professor Universitário, Especialista em Logística e Comércio Internacional, Despachante Aduaneiro atuante no Porto de Vitória com extensão em vários outros estados. Articulista do site Logística Descomplicada e Editor do site comexblog.com. Siga-o no Twitter @CarlosAraujoAG

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  • Sylvio

    Os produtores nacionais deviam e usar o tempo disponível para produzir vinho de qualidade.

  • RENATO MARRONCELLI

    ONDE É QUE EU COMPRO O SELO PARA COLOCAR NAS GARRAFAS???

  • lili fernandes

    Muito bem expressado em suas palavras o absurdo burocrático deste País.

    O aceite das pessoas fortalecem estes abusos.

    Lili Fernandes

  • Cris Sandi

    Trabalho em uma vinícola e acho isso o pior absurdo que nossos folgados governantes já nos impuseram, a mão de obra de colocar o selo é bem maior do que a de rotular, acarretando um custo bem alto para as vinícolas pequenas pois elas não tem condições de investir em maquinários para isso. Detalhe: o selo não é auto-adesivo, vem em folhas com 50 selos cada, temos que cortar, passar cola para então colar, um serviço completamente inútil e estressante, além dos selos arrebentarem depois, pois são frágeis. E outra, a estética da embalagem é muito prejudicada.

    Estamos cansados e não nos conformamos com a falta de respeito ao trabalhador que paga pesados impostos e com toda essa "BURROcracia" do nosso país.

  • dayana

    Não vamos nos esquecer de agradecer alguns dos produtores nacionais de visão míope que se engajaram nesta campanha absurda para literalmente prejudicar os importadores!

    É muito fácil conseguir informação dos responsáveis!

    Essa atitude com certeza dificulta a possibilidades de aumentarmos o consumo de vinho em nosso pais e desta maneira, todos ( inclusive os produtores nacionais ) se prejudicam!

    Parabéns a Luis Henrique Zanini, que lutou contra esta decisão absurda e recolheu 75 assinaturas num abaixo assinado, entre eles: Möet Hennessy do Brasil, ViniBrasil.

  • William Peltin

    Carlos muito obrigado pelo o artigo,

    estou atualment estudando um projeto de exportaçao de vinho francês de Bordeaux para o brasil. Você que é engarrafador pode me dizer si resultaria mais barato fazer o engarrafento do vinho no brasil?

    Isso pode ser uma alternativa ao selo IPI?

    Abraço,

  • Fábio

    Respondendo a alguns amigos acima, NÃO, a selagem dos produtos devem ser feitos no Brasil, não se pode comprar o selo e lvar para o exterior.

    Portanto, todo o calvário citado no texto (magnífico por sinal), é a pura realidade do que virá pela frente.

    Isso tudo não dificulta só para importadores, nós engarrfadores nacionais também temos aumentado os custos e trabalho.

    Só para acrescentar um desabafo, isso tudo (uso do selo), é pagar para ser fisacalizado!!

    Parabéns Brasil pala burrocracia!!!

  • Rodrigo

    Texto irrepreensível, parabéns.

    E durma-se com um barulho desses….

    Rodrigo

  • emerson l.dal lago

    como pode, estou a estudar a importação de vinho direto da Itália, e agora com essa noticia acredito que não será possivel.

  • Diogo

    Hola Carlos,

    Esse selo podera ser colocado na fábrica(selagem no exterior)? Os selos sao cobrados por garrafa e quanto custa mais ou menos? Obrigado !

  • http://www.pfatima.com.br Joel Oliveira

    Ola Carlos,

    Concordo plenamente com seu comentario referente ao grande custo que sera para os importadores nacionalizar os vinhos.

    Agora uma pergunta, esse selo para os vinhos podera se colocado na fabrica (selagem no exterior) ou devera apenas ser colocado na unidade de despacho sa SRF.

    Grato,

    Joel Oliveira

  • Brunella

    Carlos, muito bom esse artigo. E a mais pura verdade… Infelizmente, essa é a realidade do Comércio Exterior no Brasil. Muitas etapas / procedimentos poderiam ser facilitados, mas… facilitar pra quê, se pode complicar? É por aí…

    Abraços!

  • Rafaela Bozi

    Absurdo!! Natal mais caro esse ano então?! E quando a gente 'acha' que o processo burocrático brasileiro principalmente para importação pode ter alguma melhora…Sóoo atraso..retrocesso!!

    Muito bom o artigo!